Actuaram em Lisboa no passado dia 10 de Setembro, no espaço
cultural Arte & Manha, deixando bem vincadas frases melódicas
que incitam a valorizar a auto-estima: "encontre a
positividade no seu coração", ou mantras
rasta: "eu vejo vários irmãos na rua sofrendo
preconceito, lá no Brasil não é preciso visto
para entrar, mas necessita respeito".
Na bagagem traziam o gosto partilhado pelos timbres clássicos
dos anos 70, reggae, ska e funk à cabeça, não descurando
a utilização de instrumentos vintage na sua performance. Com o
quartel general assente em Barcelona, o rastaman e
vocalista Jota-III, o guitarrista JrWise, o baterista Juninho
Ibituruna compõem o núcleo brasileiro do grupo,
completado pelo baixista e produtor catalão Paquito
"Mystic Man".
Com a edição do EP "J.III & Acadêmicos Da Rua, Volume 1", a
banda permaneceu fiel às suas raízes setentistas,
apresentando um som integralmente orgânico e piscando o olho
às plataformas analógicas e às vibrações jamaicanas e brasileiras.
O trabalho pode ser descarregado gratuitamente no site da banda:
http://j3oficial.com.br
Em conversa com o A Hard Day´s Night, o músico JrWise falou da
música e de outros aspectos relacionados com o Acadêmicos da
Rua:
Nos vossos reggaes e funks há uma marca muito forte do
hip hop. Porque resolveram juntar esta componente
?
Quando formámos a banda, um projecto que eu desenvolvi com o
Paquito, procurávamos um vocalista. E pensámos no J.III que era meu
amigo. Ele tinha uma influência forte de rap e de hip hop
e fez dois trabalhos a solo em que,
nomeadamente, misturou o rock com hip hop. E como eu gostava
dessas sonoridades convidámo-lo para integrar o grupo. Na altura,
disse-lhe que iamos produzir uma parte do disco mais dub, funk, e
cantada, e numa parte tu vais rimar e funcionou (risos).
De todas as vossas influências musicais, quais são as
mais fortes ?
Nós ouvimos muito a música jamaicana, funk norte-americano e
música brasileira. Mas, bandas como The Meters , Parliament
Funkadelic ou músicos como James Brown são mais evidentes na
nossa música. E as nossas linhas de baixo são muito
influenciadas pelo dub. Também gostámos muito do rocksteady e
influencia muito a nossa parte rítmica.
O vosso som combina com uma linguagem urbana muito
vincada. Sentem que têm algo a dizer ao mundo ?
Temos um compromisso muito sério nas letras. Queremos
transmitir uma mensagem de esperança e procurar trazer uma mudança
ao mundo. Hoje em dia, as coisas estão muito desorganizadas como
acontece com a política e religião, entre outras
coisas. Tentamos, de alguma forma, trazer algo de positivo à
vida das pessoas.
Na actuação do Arte & Manha,
contemplaram o público com um ragga psicadélico. É um espírito de
fusão simples ou procuram a originalidade ?
Procuramos sempre ser originais. Não nos passa pela cabeça
fazer só reggae ou hip hop, como muitos grupos fazem. Gostamos da
fusão, de misturar estilos e colocar elementos nossos. Quando
pensámos em fazer isso, tentámos fundir uma linguagem psicadélica
na batida do ragga. Utilizamos muitos os efeitos de delay para
obter essa sonoridade e o J.III improvisa letras de Chico Science
& Nação Zumbi e isso insere-se no nosso espírito de fusão
com originalidade.
A cover de "Cissy Strut" ganhou novas cores com o rap
do J.III. Como adaptaram a vossa mensagem ao funk de Nova Orleães
?
Eu, o Paquito e o Juninho já temos muitas influências do
funk. E eu próprio toco numa banda, The Slingshots, em
Barcelona, com esse espírito. The Meters é dos
grupos que mais me influenciou desde que começei a ouvir essa
sonoridade. Aprecio o toque deles, a forma como transmitem a sua
música e os timbres, que são quase similares aos nossos. A fusão do
hip hop e do funk já foi feita, mas nós apropriámo-nos do som e
colocámos letras nossas. Neste caso, a letra é do segundo
disco do J.III e resolvemos fazer uma versão que traz a força do
funk e do hip hop conjugados.
A vossa actual digressão vai passar
pela Inglaterra e Bélgica. Pode-me falar um pouco desses
espectáculos ?
O show na Inglaterra é integrado
no festival Espirito Brum, que convida artistas brasileiros a tocar
na base do intercâmbio cultural e também leva músicos ingleses a
tocar no Brasil. É constituído por músicos e djs que fazem uma
mistura do dub e rocksteady e nós vamos ser uma das bandas
principais, mostrando o nosso trabalho cem por cento em português.
Na Bélgica, tocaremos num festival de música alternativa, em
Ghent, onde já actuei como mc de drum n´bass em 2008 e
2009. As pessoas da organização ouviram o nosso disco,
disseram-nos que encaixava no espírito pretendido e aceitámos
participar.
Sei que pretendem lançar o EP no formato de vinyl. Como
está a decorrer o processo ?
Conseguimos chegar a acordo com uma subsidiária inglesa
que faz prensagens a um preço muito bom. E o disco será
produzido e lançado no nosso selo, Sweety Music Recordings, de
Barcelona, sociedade minha e do Paquito, e o formato de
vinyl deverá estar disponível em Dezembro próximo ou
Janeiro.
Quais são os vossos planos
futuros ?
Em princípio, lançaremos um novo EP no Verão do próximo ano. Na
realidade, gravámos um ábum com 12 temas, mas só editámos seis
canções. Mas, também estamos interessados em fazer um trabalho com
outros elementos sonoros, como é o caso do ragga psicadélico que
citaste. Pretendemos lançar um videoclipe oficial e já temos
dois clipes gravados que estão em edição.