Quando a notícia da morte de Michael Jackson surgiu senti
um misto de desconforto e de surpresa. É certo que a forma como
viveu e os mais recentes episódios transformaram-no num possível
alvo, mas, ainda assim, os factos não deixaram de me provocar
estupefacção.
Para quem cresceu nos anos 80, a famosa geração MTV,
assimalava fácilmente os gestos, os passos de dança, os pequenos
gritos tribais e, claro, um naipe de canções memoráveis adornados
por videoclipes que fizeram história e, consigo, moldaram a
história da música popular.
Recordo-me dos meus
pais me oferecerem o LP Thriller aos 13 anos de idade.
Para trás existiam algumas músicas interessantes com os seus
irmãos, no projecto Jackson 5, mas o álbum de 1982 era, e ainda é,
uma revelação. Um daqueles raros discos que se ouvem do
princípio ao fim.
Pouco a pouco,
decobri que além de coreografias fantásticas como em
Thriller, o homem sabia cantar. Bastava ver a incrível
carga emotiva de Billie Jean, a festividade de
Wanna Be Startin' Somethin´ ou a roqueira Beat
It. Ele era um fenómeno para quem crescia com a sua
música.
Alguns anos depois
veio o videoclipe de Bad e as grandes digressões.
Recordo-me bem de um tema magistral, Smooth Criminal, que
foi mantendo as minhas atenções intactas em Michael Jackson o
performer e continuei a acompanhar a sua evolução
artística e criativa.
A última vez que um
disco seu me mereceu atenção foi Dangerous, de
1991. Um ano depois, Michael Jackson apresentava-se pela
primeira e única vez em Portugal. Não compareci à chamada, mas
recordo os ecos de 50.000 espectadores no Estádio de Alvalade, em
Lisboa, a 26 de Setembro de 1992.
Depois disso... o
avolumar das críticas de wacko jacko, pedofilía e outros
factos bizarros. Sempre achei que a indústria dos escândalos e
do entertainment norte-americano procuraram
explorar os famosos e criar notícias muitas vezes alimentadas pela
voracidade que as estrelas despertam.
Até à sua morte,
encontrei em Scream, Earth Song e They Don´t
Care About Us motivos mais do que suficientes para perceber
que a criatividade não tinha morrido e que os 50 espectáculos
programados para Londres podiam muito bem ser o Comeback
Special de que ele precisava e nós precisávamos.
Michael Jackson
morreu e com ele morreu uma parte do imaginário colectivo. Seria
sempre difícil suplantar os 106 milhões de cópias vendidas de
Thriller, mas o seu percurso artístico, e é esse que me
interessa, permanece intocável e continua irresistível e
influente.