O desconhecimento dos portugueses face ao rock brasileiro é grande. Por um lado, criou-se a ideia de que esta linguagem só funciona bem quando cantada em inglês. Por outro, existem muitas pessoas que consideram suficiente ter os Xutos & Pontapés a fazê-lo há quase 30 anos. Sem querer entrar em discussões académicas, optarei por traçar e/ou dar a conhecer o perfil da mais famosa banda de rock n´roll do Brasil.
Um encontro, no Rio de Janeiro, em 1981, reuniu o baterista Guto Goffi e o teclista Maurício Barros. Ao par juntar-se-ia o guitarrista Roberto Frejat. Pouco depois, com a entrada de Cazuza, estava dado o toque de midas que faltava ao conjunto: excelentes letras, vozeirão e uma postura irreverente em palco. Um ano depois, surge o primeiro trabalho, "Barão Vermelho", do qual se destacavam a roqueira "Ponto Fraco" e o blues "Down Em Mim".
A importância artística de Cazuza aumentava e foi sem supresas que Caetano Veloso o apontou como "grande poeta do Brasil". O famoso músico brasileiro aludia à canção "Todo Amor Que Houver Nessa Vida". A declaração serviu de detonador para o sucesso do grupo que chegaria ao som de "Bete Balanço". O hino "Pro Dia Nascer Feliz", o lp "Maior Abandonado" e a lendária participação no Rock In Rio de 1985 consagraram o Barão Vermelho em terras brasileiras.
A vontade indomável de experimentar outras correntes musicais levariam Cazuza a abandonar o projecto e Roberto Frejat acumulou as funções de guitarrista e vocalista. Os melhores resultados surgiriam em 1988 com o álbum "Carnaval" e muito por conta de "Pense e Dance". Uma faixa bem exemplificativa do poder do Barão Vermelho pós-Cazuza: guitarras afiadas, forte percussão e carisma musical. Os tempos seguintes seriam generosos para o grupo carioca, através de inúmeros prémios, entre os quais o galardão de melhor banda de 1991, da maior revista de música brasileira, "Bizz".
De resto, os anos 90 seriam um dos períodos mais interessantes do Barão Vermelho. Primeiro, com "Álbum", de 1996 e o seu sucessor "Puro Êxtase". No primeiro caso, um grande disco de covers, onde o tema "Vem Quente Que Eu Estou Fervendo" seria elevado à condição de clássico. E "Puro Êxtase" aproximaria o agrupamento das sonoridades electrónicas. Num dos seus últimos discos, "MTV Ao Vivo", os prodígios da tecnologia permitiram a Frejat cantar "Codinome beija-flor" quase acompanhado do falecido Cazuza, para delírio do público.
A discussão permanece: o Barão Vermelho é melhor com ou sem Cazuza ? Embora a mitologia consagre o grande poeta, a versão anos 2000 traz-nos soluções sonoras inovadoras. Para tal, basta pensar na cada vez melhor percussão de Peninha ou a introdução de uma engenhosa secção de sopro. O verdadeiro espírito do rock está lá e sobreviveu a todas as alterações na formação. Para ilustrar o savoir-faire de Frejat e companhia sirvo um "Cuidado", de 2004.