Os Black Crowes são uma das boas raridades que ainda podemos escutar e observar no século XXI. Ancorados em raízes musicais americanas profundas e adoptando uma pose e indumentária dos anos 70, tomaram os blues como seus e construiram uma sonoridade legítima e muito própria. Com o primeiro disco, "Shake Your Money Maker", tornaram-se famosos nos Estados Unidos e aproveitaram a onda de revivalismo rock que se vivia, em 1990.
Dois anos mais tarde, apresentavam uma notável colecção de 10 canções que comprovava a vitalidade do projecto e desmentia a ideia de serem apenas um conjunto de imitadores baratos da velha escola do rock n´roll. O espírito que habitava "The Southern Harmony and Musical Companion" apoderava-se do boogie dos Faces, criava momentos soul que repescavam Ottis Redding e os Humble Pie: "Thorn In My Pride" e revisitava um tema de Bob Marley: "Time Will Tell".
A pujança do manifesto rock lifestyle de "Hotel Ilness" também convencia. Mas, o momento chave do álbum, encontramo-lo na metáfora sexo/drogas de "Remedy". Num passe de mágica, os atributos dos guitarristas Marc Ford e Rich Robinson encontravam a tradução perfeita no canto possuído de Chris Robinson, navegando em águas hard rock tingidas a gospel. Um dos aspectos mais interessantes ocorre no abrandamento, permitindo à canção "respirar".
A capacidade de moldar um modelo clássico e recriá-lo convincentemente está estampada em "The Southern Harmony and Musical Companion", definitivamente um dos discos da minha vida.

